sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Despedida




Vago Viés. Lembro-me muito bem de quando pensei em começar esse blog. Foi um momento de muitas mudanças, término de um ciclo, novas amizades, vontades. Um espaço que se tornou uma extensão dos meus pensamentos, dos meus vagos vieses. O nome me pareceu tão familiar e sonoro que eu pensei que houvesse algo igual, mas descobri que não, talvez fosse algo que já existisse dentro de mim. Algumas pessoas passaram a me conhecer melhor a partir desse blog. Amigos que vinham me procurar dizendo que não sabiam que eu gostava de escrever e que acabavam se surpreendendo com o que liam. Ao longo desse tempo recebi alguns elogios, o que me deixa muito feliz, algumas brincadeiras, situações que poderiam ser levadas como críticas, mas depois de tudo vejo que o saldo que fica é positivo. Sinto também que esse já não é mais um espaço que me satisfaz, sinto que talvez ele esteja impregnado de algo que eu tenha a necessidade de chamar de passado, que seja um tempo já decorrido, mas um tempo e espaço que valorizo e que espero que dure na efemeridade da Internet, para que sempre que eu precise me reconhecer, reconhecer quem eu fui, eu possa dosá-lo em cápsulas de nostalgia. Sei que meus Vagos Vieses sempre vão me acompanhar, mas creio que seja hora de objetivar mais minha vida. De começar algo concreto. Sigo um novo caminho, sem me esquecer da velha senhora de cabelos brancos trancada em sua própria casa, do velho viajante, de meu último cigarro, da pintura do meu quarto, da minha BACKGROUND AND PROTECTOR HEAD BUBBLE, do homem que desistiu de dormir, dos vaga-lumes, entre tantas outras coisas que já passaram pelo meu imaginário e que talvez nada tenham sido além de mim mesmo. Agradeço a quem já leu esse blog, mesmo que essas pessoas não leiam esse agradecimento sinto a necessidade de registrar, fechando uma fase e abrindo um novo ciclo da minha vida. Obrigado.
Guilherme Maldotti

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Vazio


.termino o texto antes mesmo de começaR ?de que vale me esforçar e falar de mim se ninguém mais se interessA .uma geração que não tem nada a dizer além de seus próprios narizes, que por mais que sangrem continuam empinadoS .uma felicidade vazia me invade e me satisfaz com um trabalho qualquer e canções fáceis nos lábios para se cantar enquanto não se pensa em nadA .uma sociedade de conversas dadas, onde os diálogos são premeditados e o conteúdo é cada vez mais fáticO
!boa noitE-
.obrigado, igualmentE-

terça-feira, 28 de abril de 2009

Céu da boca


E a hóstia não derretia! Já estava há quatro dias grudada no céu de sua boca, intacta, inteira. Sua língua já sangrava de tanto que a esfregava em vão tentando dissolver o que já lhe parecia um pedaço de papelão em seu palato. Seu sangue mundano já se misturava ao corpo sagrado. Em seu cubículo de trabalho cuspia na lixeira, o que empesteava todo o ambiente com um cheiro forte ferroso. Quatro longos dias de sangue cuspido ali, parado, guardado. Chegava em casa de noite, trazendo sempre qualquer comida da rua, que comia como se come a última ceia. Colocava suas valsas para tocar na vitrola que pulava e fazia ruídos. Andava de um lado para o outro da sala, antes acompanhado apenas pelo pendulo do relógio, agora jurava que a santa de gesso girava seus olhos, o observando em sua impaciência. Ele não gostava de seus olhinhos claros, miúdos e a colocou olhando para a parede, mas ela virava o pescoço em um esforço suave, continuando a fitá-lo aflito. Já escurecia. Cozinha, armário, velas. Sala, gaveta, fósforos. Acendeu o pavio virgem. Inclinou a vela aos pés da santa e pingou gotas brancas quentes de cera que jorravam . A chama se fixou e fazia sombra da estátua na parede, bem ao lado da sombra dele. A santa já não o olhava mais. Ele fez mais alguns esforços, agora com a unha, arranhando o céu da boca. Não conseguiu nada além de mais sangue na boca. Voltou seu olhar para a santa que lhe dava as costas. A sombra dela parecia estar aumentando de tamanho, até que atingiu o mesmo tamanho da dele. Então a sombra da santa fez um gesto de gentileza para a sombra dele e ambas começaram a valsar pelas paredes do cômodo. Ele apenas girava em seu próprio eixo observando assustado o que acontecia. O ritmo da valsa crescia e a dança das sombras ficava mais rápida. A música acelerou até se tornar algo ininteligível. Ele já gritava de desespero, correu até a parede e começou a esmurrar os vultos. A valsa da vitrola se misturava aos risos que as sombras soltavam pelo desespero alheio. A cada soco mais sangue e menos pele. Ele já não agüentava mais aquele sofrimento e ao som dos risos e da valsa, sendo seguido pelas sombras, ele pegou a vela acesa e a colocou dentro de sua boca, queimando o céu. O cheiro de carne queimada era forte, mais difícil de resistir do que a própria dor. Não funcionou. Ele foi até a cozinha e após esfregar seu sofrimento com esponja de aço, serviu uma dose de Diabo Verde numa xícara de porcelana e sorveu, fazendo bochecho e gargarejo. Ardeu, derretendo sua garganta, gengivas e bochechas. Depois de engolir ele regurgitou pela boca e nariz. Não funcionou. Ele foi até o quarto pequeno e bege. Retirou da cômoda uma lata de costura. Remexeu tudo afoito se furando em alguns alfinetes até achar o que procurava. Pegou a tesoura pontiaguda e enferrujada que não via há anos. A abriu e colocou dentro da boca. Sentiu a ponta de ferro enferrujado tocar a ferida. E quando já apoiava uma mão sobre a outra, dando a coragem para pungir o próprio corpo, o relógio tocou. Era seis da manhã. Ele levantou, trocou de roupa e saiu para o trabalho. Trabalhou o dia inteiro, com a hóstia grudada ao céu da boca, pensando em sua ceia e na tesoura que o aguardava repousada aos pés da santa.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Interferências

Ângelo voltava da casa de sua nova companheira. Ele era um desses caras de sagitário que se encanta com o mundo a cada novo segundo, não que eu acredite muito nessas coisas de horóscopo, destino e ocultismosasdjkhjfdh.............. era Jacobo, barra das calças jeans azuis rasgadas, em fiapos, pés molhados, descalços, sujos de água da chuva e asfalto......aashdshgdaaaaaaaaareiru no carro ele ouvia uma música dessas vanguardistas, uma mistura de sons eletrônicos, com ópera, caixinhas de música, algo que parecia remeter a um paraíso que ele acabara de tocar após algumas taças de vinho e alguns orgasmos apaixonadossajdhjkas........ a franja caía em seus olhos em mexas de cabelo que pareciam feitas por algum artista renascentista tamanha a perfeição milimétrica, a água, que ainda escorria por seu nariz era desviada pela boca entreaberta que respirava ofegante, Jacobo sangrava............sdfjhasdjfydsgty fazia frio em Buenos Aires nesse dia. As luzes das ruas pareciam embaçar o ar próximo de um amarelo muito fosco, Ângelo aumentou a luz da lanterna e ligou o limpador de vidrohasgdhsym,pov.............. ele nem enxergava mais a luz vermelha do semáforo que refletia no chão úmido, apenas andava, como uma criança que acaba de aprender seus primeiros passos.............djafhuydsgYAHSU o celular de Ângelo tocou. Estava em sua jaqueta, no banco de trás. Ele fez algum esforço e conseguiu pegar o telefone, quando olhou para frente quase HAVIA ATROPELADO um casal entorpecido que atravessava a rua. O casal riu muito da situação, bêbadosjshdajshfjasdf........ lama! as pegadas de Jacobo iam ficando pelo canteiro de obras. Ele subia as escadas ainda não terminadas como quem ainda não sabe muito bem para onde vai.......... hahsg22222 era Manuela: - Não agüentei esperar você chegar em casa... te liguei... ambos felizes trocando palavras de afetosafdunoiie............ ventava muito lá em cima e de lá dava pra ver bem todas as luzes vivas da cidade interagindo com o azul das estrelas e seus reflexos, os dedos de Jacobo dobravam para fora do parapeito, como as garras de uma ave que tenta se manter firme, talvez fosse seu extinto de sobrevivência... ele se inclinou para frente.....

Hesitou...
Desligou o telefone...
Deu dois passos para trás...
Deu um sorriso espontâneo...
Deu um sorriso espontâneo...
Acelerou o carro....
Caiu de joelhos....

Ângelo atravessou o guardirreio em alta velocidade, voou alguns metros depois de quebrar o vidro da frente do carro, totalmente entregue a sua ventura, como um bebê que dorme embalado por sua mãe, e beijou o asfalto...
Jacobo se lembrou que ainda usava sua camisa de força e que assim não conseguiria alçar grandes vôos, então, de felicidade, beijou o chão da rua com sua boca machucada....
Ambos sentiram o áspero do concreto atravessar seus dentes para então se misturar com o quente e doce do sangue....
O som da ópera atingia seu clímax, enquanto fugia pelos estilhados do vidro quebrado e manchado com gotículas de sangue esmaecidas pela chuva...
Jacobo ouvia ao longe uma música linda que se misturava com os outros sons da noite urbana....
Sem se conhecerem, experimentaram por alguns instantes comuns o real gosto da vida.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Jardim da frente

Me contaram essa história... de um senhor aqui da casa da frente.
A casa é grande, tem um jardim maravilhoso, com plantas que sobem pelas paredes, flores de todas as formas, cores e cheiros espalhadas, arbustos muito bem delineados. Tem dois andares, portões e muros baixos e é branca, muito branca.
Enfim, diz a história que o dono dessa casa era um homem que gostava muito de viajar. Tinha sempre sua mala feita. Ele dizia: -Basta querer e minha casa cabe dentro dessa mala. Ele mal chegava de suas viagens e já estava pronto para sair. Quando retornava de suas andanças pelo mundo vinha sempre diferente. Suas chegadas eram atração no bairro. Uma vez, vindo de uma tribo do Pará, chegou todo pintado de vermelho, usando cocar e tanga; voltado da Índia chegou careca, usando roupas estranhíssimas, colares e pulseiras; quando voltou do Japão, não tirava seu quimono preto. Ele dizia que sempre era a pessoa que queria ter se tornado, mas que logo sentia a necessidade de ser um outro alguém. Vivia assim, nessa superficialidade. Chegava, deixava sua mala marrom na porta de casa e sem nem tirar seu conteúdo já a erguia novamente e saía pelo mundo mais uma vez. Talvez ele fizesse isso porque quem nunca retorna a casa não é capaz de sentir que está a deixando. Ele viveu assim durante anos. Um dia ele voltou sabe-se lá de onde. Deixou sua mala na porta e entrou. Ficou lá dentro por alguns instantes. Aí os vizinhos relatam que ele abriu levemente a porta e sem sair puxou a mala para dentro com uma das mãos, olhou para os lados e fechou a porta. Essa foi a última vez que ele foi visto. Nunca mais o homem saiu daquela casa. Ninguém sabe o motivo. Eu acredito que ele tenha visto as maravilhas de uma vida que ele tratava com displicência, talvez ele tenha olhado por uma de suas grandes janelas e percebido a beleza das vistas de sua casa. Talvez naquele dia ele tenha sentido pela primeira vez o cheiro único do misto que suas flores compunham. Talvez ele seja um desses clichês que buscam algo a vida inteira, mas que acabam percebendo no final que procuravam uma coisa que se mostrava de um modo simples, discreto e cotidiano. As pessoas acreditam que ele tenha morrido lá dentro. Seria fácil de acreditar que ele realmente já esteja morto, já que foi minha bisavó quem me contou essa história dizendo que ele já era um senhor enquanto ela era uma inocente criança. Mas e o jardim que se mantém inexplicavelmente arrumado? Este senhor conseguiu, como diria alguém que admiro, por “quantas flores forem as mais risonhas, para que te reconheçam só assim” e fez dele “um duplo ser guardado”. E ainda mais intrigantes são as noites de calor quando o jardim se perfuma e é possível se ouvir risos de satisfação saindo de dentro da casa, como se também emanassem das próprias flores.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

2 em 1


Resumo

Então, blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá SEXO blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá AMIGOS blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá DINHEIROblá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá TRABALHO blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá FAMÍLIA blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá DIVERSÃO blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá COMIDA blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá PRAZERES blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá DEVERES blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá . Então é isso entendeu?!

Semiótica Desvairada

Hoje é domingo. Liguei para todo mundo e nada deu certo. Saí para tomar uma cerveja solitária de posto. Mandei uma última mensagem sem esperança pelo role enquanto saia pelo portão. Um outro amigo ligou dando más notícias de um bar que já tinha desencanado. Enfim... subi até o posto, entrei na conveniência, abri a geladeira, peguei uma cerveja e fui pro caixa. Lembrei de quando era menor de idade e tinha medo de comprar bebida. Paguei, peguei o troco, boa tarde, obrigado! Sai meio sem rumo.... aí lembrei de uma praça que tem por ali. Ela estava vazia. Sentei num banco vermelho abri a garrafa e comecei a beber. Pensei em como a minha vida é bipolar. No sábado me satisfaço em uma noite de extravagâncias, gente pelada, maquiagem e vômitos, no domingo com meu mp3, uma breja e uma praça vazia. Olhei os prédios e pensei em como é estranho alguém assistir se vira nos trinta enquanto pode ter alguém cagando no andar de cima. Olhei pro vão da praça e pensei na quantidade de pessoas que vivem nessa cidade. Aí já pensei em quantas delas poderiam estar tendo orgasmos naquele exato instante... e que eu não era uma delas. Vi um poste e uma árvore lado a lado e pensei em escrever um texto metaforizando o poste de ferro como a razão humana que sobe reta, dura, gelada, ciente de seus objetivos e a árvore como a natureza humana, torta, orgânica, com flores, cheia de mudanças, buscando apenas sua existência e conforto. Ai logo me veio na cabeça que seria mais um post de 2 comentários (nada diferente do que será deste). Ouvi Otto, The Strokes, Los Hermanos e Stereophonics, estive em ótima companhia. Lembrei daquela pessoa que é muito insegura, da outra que se acha a mais experiente e dona da verdade, da outra que transforma sua realidade em algo extraordinário (mesmo sabendo de sua insignificância), da pessoa que tem objetivos claros e não consegue atingi-los, todo o meu mundo de pessoas passou pela cabeça e ainda tentei adivinhar o que essas pessoas pensam de mim. Pensei em mim, tão confuso, sem força de vontade, cheio de sonhos e poucos objetivos. Me veio Fernando Pessoa na cabeça: “Tudo o que sabemos é uma impressão nossa, e tudo que somos é uma impressão alheia...”. Senti cheiro de banza. Não era eu. Olhei pra trás e vi um homem de verde passando e fumando. Eu estava de verde também, mas juro que não era eu. Aí pensei em como a droga é companheira do homem. Seja na simplicidade ou na extravagância elas sempre estão presentes. Seria o desprezo do homem pela realidade? Levantei. Senti que tinha molhado minhas calças com a garrafa. E, merda, bem no saco! Idiota. Começou a tocar Mr. Brigthside. Me distraí brincando de não pisar nas linhas do chão enquanto saia do parque. Joguei a garrafa vazia no lixo. Do lado tinha um mendigo dormindo enrolado nas suas cobertas. Pensei em como seria a visão dele sobre o mundo. Na calçada de casa tinham umas crianças fantasiadas. Talvez estivessem pedindo doces de dia das bruxas. Uma hora de solidão e tudo isso me vem em mente! Entrei em casa. TV ligada na sala: “O loco meu!”. E pensei: - Como queria parar de pensar e assistir se vira nos trinta com alguém cagando no andar de cima! Subi e escrevi isso que é mais um desabafo que ninguém irá ler, que não pretendo que ninguém entenda, que terá menos de cinco visualização, mas que alguém pode um dia descobrir e perceber o quão extraordinário era o dia-a-dia desse cara (vulgo eu) tão inseguro que se acha o dono da verdade e mais experiente do mundo, mesmo não conseguindo realizar os objetivos que não tem.

domingo, 26 de outubro de 2008

Não consigo dormir. Me lembrei de um homem com quem conversei numa noite dessas. Ele me disse não dormia há mais de quatro anos. Ele disse também que desistiu do sono depois de descobrir que a morte e o sono são a mesma pessoa. Ele falou que essa pessoa, por ser traiçoeira, pode nos levar sem que percebamos e então nunca saberíamos que algum dia tivemos vida. Aí perguntei para ele se ele não sentia falta de dormir. Ele respondeu que não, que havia se acostumado, mas que sentia falta de sonhar, porque para ele os sonhos (sonhados enquanto se dorme) são uma espécie de segredo. Segredos tão especiais que só contamos a nós mesmos e que às vezes são tão secretos que acabamos nem lembrando. Ele falou isso e bocejou. Talvez fosse hora de ele dormir.